‘DESCONECTANDO O TELETRABALHO’: O RETORNO COMPULSÓRIO (E ABRUPTO) AO TRABALHO PRESENCIAL NO GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL NA PERSPECTIVA DE SERVIDORES.

Publicado em 30/06/2025 - ISSN: 2594-5688

Título do Trabalho
‘DESCONECTANDO O TELETRABALHO’: O RETORNO COMPULSÓRIO (E ABRUPTO) AO TRABALHO PRESENCIAL NO GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL NA PERSPECTIVA DE SERVIDORES.
Autores
  • Clayton Clay Furtado
  • Lana Montezano
Modalidade
ARTIGO
Área temática
GT05 - Gestão de Pessoas e Comportamento Organizacional no Serviço Público
Data de Publicação
30/06/2025
País da Publicação
Brasil
Idioma da Publicação
Português
Página do Trabalho
https://www.ebap.sbap.org.br/anais/encontro-brasileiro-administracao-publica/1061273-desconectando-o-teletrabalho--o-retorno-compulsorio-(e-abrupto)-ao-trabalho-presencial-no-governo-do-distrito-
ISSN
2594-5688
Palavras-Chave
Teletrabalho, Trabalho Retorno ao presencial, Natureza da atividade, Setor Público.
Resumo
O teletrabalho foi instituído pelo GDF com Decreto nº 39.368/2018, prevendo a realização de experiência piloto, e o requisito de produtividade superior a 20% do servidor em teletrabalho. Com a crise da pandemia do Covid 19, foi publicado o Decreto nº 40.546/2020 que instituiu o teletrabalho de forma temporária para adequar às exigências de segurança da saúde do trabalhador. Todavia, foi publicado o Decreto nº 44.265, em 24 de fevereiro de 2023, o qual estabeleceu o fim do regime de teletrabalho, anulando os anteriores e todos os atos administrativos correlatos, que haviam inicialmente instituído o teletrabalho, marcando um retorno compulsório ao trabalho presencial para todos os servidores que estavam em teletrabalho, com efeito imediato. Com isso, houve uma insatisfação generalizada por partes dos servidores distritais, principalmente à falta de motivação do ato de revogação, ao pouco tempo para o retorno obrigatório ao trabalho presencial, o que impactaria as rotinas já estabelecidas pelos servidores (Silva, 2023). Até o momento, a administração pública do Distrito Federal permanece com a manutenção do trabalho presencial, sem qualquer possibilidade de teletrabalho, apesar das manifestações contrárias. O conjunto da literatura com notícias da mídia apontou que a continuidade do trabalho remoto no governo federal, após a pandemia de Covid-19, gerou tensões entre servidores públicos e dirigentes de ministérios e estatais (Antunes, 2022; Marchesini, 2023). Enquanto os gestores de alto escalão pressionaram pelo retorno ao trabalho presencial, servidores de escalões inferiores defendem a permanência do home office. Tal posição reflete um dilema comum em organizações que estão tentando equilibrar os benefícios do trabalho remoto com as demandas e percepções tradicionais do trabalho presencial (Abbad et al., 2019; Wen, 2023). Há recomendações de estudos que discutam as implicações do teletrabalho após o período pandêmico (Moreira Jr.; Santos, 2023), inclusive considerando a influência de características organizacionais, profissionais e individuais (Mele et al., 2023). Sendo assim, este artigo tem como objetivo identificar a percepção de servidores de três órgãos do Poder Executivo do GDF sobre o retorno ao trabalho presencial, após o período da pandemia, bem como verificar possíveis variáveis pessoais e profissionais que possam influenciar tal percepção. O conceito de teletrabalho refere-se à execução de tarefas remotamente, utilizando TIC e permitindo que os resultados do trabalho sejam obtidos em um local diferente daquele onde a pessoa que o realiza está presente (Rosenfield; Alves, 2006). A introdução do teletrabalho no setor público foi impulsionada pela necessidade de garantir a continuidade operacional durante situações emergenciais, como a pandemia de COVID-19 (Kim, 2023). O teletrabalho foi promovido como uma estratégia para melhorar a satisfação dos funcionários e servidores públicos, oferecendo-lhes maior flexibilidade e autonomia no trabalho (Perego; Belardinelli, 2024). Em relação às dificuldades de retorno ao trabalho presencial, Almeida (2021) revela desafios como a readaptação à rotina, o trânsito e o alto custo da gasolina. Fan e Moen (2023), ao estudar servidores públicos americanos pós pandemia, constaram que o retorno total ao local de trabalho está associado a maior estresse e menor bem-estar. Bühler et al. (2024), ao estudar a experiência de retorno ao presencial após três anos de teletrabalho de profissionais da área de TI, constaram vantagens como maior interação e socialização, e como principais desvantagens o tempo de deslocamento ao trabalho e a necessidade de adequação das atividades pessoais e familiares. Esta pesquisa é caracterizada como teórico-empírica, de natureza descritiva, com recorte transversal e abordagem quantitativa. Trata-se de estudo de caso em três organizações do poder executivo do DF, selecionadas intencionalmente em função de duas terem sido as pioneiras na adoção do teletrabalho no governo distrital e a terceira ser responsável pelas diretrizes de gestão de pessoas do governo e não ter experiência com teletrabalho antes da pandemia. Os dados foram coletados com aplicação de questionário eletrônico do Google Forms estruturado em seis partes: (i) apresentação da pesquisa e pergunta sobre consentimento de participação voluntária; (ii) caracterização da experiência em teletrabalho; (iii) vantagens e desvantagens da experiência no teletrabalho; (iv) experiência de retorno ao trabalho presencial; (v) percepções sobre possível retomada do teletrabalho no GDF; (vi) caracterização do respondente. Como pode-se observar, o instrumento faz parte de uma pesquisa mais abrangente sobre o teletrabalho no GDF, sendo que o escopo deste artigo contemplará resultados das 2ª, 4ª e 6ª partes. Os 16 itens da 4ª parte foram elaborados com base na literatura e mensurados com escala tipo Likert de cinco pontos. A pesquisa foi divulgada por e-mail, whatsapp e presencialmente aos servidores dos três órgãos, sendo os dados coletados entre 2/09 a 7/11/24. A partir da amostragem não probabilística por conveniência, obteve-se uma amostra de 866 participantes voluntários, o que representa 95% de confiança e 2,91% de erro amostral da população. Ressalta-se que foram obtidas amostras representativas também de cada um dos três órgãos com 95% de confiança e erros amostrais entre 4,4% e 4,9%. O perfil da amostra é caracterizado principalmente como: 71,2% possuem pós-graduação lato sensu, 50% do sexo masculino, 39,9% possuem entre 41 a 50 anos, 53% se autodeclararam como brancos, 62,7% possuem filhos, 12,5% tem filhos menores de 6 anos e 2,8% tem dependentes econômicos maiores de 65 anos, 43,5% levam até 30 minutos de deslocamento ao trabalho, e 76,2% não usam transporte público para ir trabalhar. Quanto a questões profissionais, tem-se que: 55,8% realizam atividade administrativa de elaboração de documentos, 37% possuem até 5 anos de experiência no órgão, 58,1% são servidores efetivos não comissionados, 59,5% não possui cargo/função de gestão. Com uso do Excel e do SPSS, os dados foram analisados com estatística descritiva (frequência, média, e coeficiente de variação - CV) e inferencial não paramétrica com teste de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis, a depender do tipo de variável, para comparação de grupos. Inicialmente, quanto a experiências em teletrabalho, 86,5% atuaram nesta modalidade nos últimos anos, 49,7% foram apenas durante a pandemia, e 31,6% trabalharam entre 7 e 12 meses em teletrabalho. Os itens com as maiores médias foram: preferia ter continuado trabalhando remotamente após a pandemia (M - 4,48; CV - 24,7%); fiquei preocupado(a) com minha saúde ao retornar ao trabalho presencial (M - 3,89; CV - 36,4%); e me senti ansioso(a) em relação ao retorno ao trabalho presencial (M - 3,59; CV - 42,2%). Por outro lado, as menores médias em relação à percepção sobre o retorno ao trabalho presencial foram: prefiro o trabalho presencial para separar claramente as atividades profissionais das domésticas (M - 1,62; CV - 70,2%); sinto que minha produtividade está maior no ambiente de trabalho presencial (M - 1,64; CV - 69,6%); e fiquei satisfeito em voltar a trabalhar presencialmente (M - 1,70; CV - 69,7%). Os resultados apontam a insatisfação com o retorno ao trabalho presencial e interesse em terem oportunidade de atuar na modalidade de teletrabalho. Em relação à comparação de grupos, dos 16 itens avaliados, houve diferença significativa na percepção dos grupos quanto: todos os itens ao comparar com a faixa etária; em 15 itens decorrente do tipo de atividade que realiza no órgão e quanto ao nível de gestão que exerce; em 13 itens de grupos que ocupam cargo/função de gestão e quanto ao tempo de experiência no órgão; em 11 itens entre os três órgãos; em oito itens quanto ao nível de escolaridade; em dois itens em relação a ter dependentes econômicos com até 6 anos ou acima de 65 anos e quanto ao tempo médio de deslocamento ao trabalho; em apenas um item em relação ao gênero e ao fato de usar transporte público para ir trabalhar. Com isso, pode-se identificar as principais variáveis pessoais e profissionais que influenciaram na percepção quanto ao retorno ao trabalho presencial. Apesar de haver estudos que reforçam a necessidade do teletrabalho para mulheres decorrentes dos múltiplos papéis que assuem na vida doméstica e profissional (Al-Boinin, 2022), esta pesquisa evidenciou que, de modo geral, não existem diferenças significativas na percepção quanto ao retorno ao trabalho presencial na perspectiva gênero, ou seja, que na média, tanto homens como mulheres perceberam desvantagens ao retornar ao presencial. O estudo contribui ao apresentar as percepções de uma amostra de servidores do GDF quanto ao retorno ao trabalho presencial, diferente do que vem sendo adotado em outros órgãos e recomendado pela literatura quanto aos benefícios que o teletrabalho tem para a qualidade de vida do servidor, e mantendo a boa prestação do serviço público. O estudo avançou em lacunas da literatura que investigam a percepção dos indivíduos no retorno presencial do pós-pandemia. Como implicações práticas, estes resultados podem servir de insumos para elaboração de estudo e normatização de uma política de reimplantação do teletrabalho no GDF, considerando as principalmente as particularidades da natureza das atividades desempenhadas nos órgãos, além das outras variáveis que influenciam a percepção quanto à necessidade ao retorno do teletrabalho, de modo a gerar benefícios tanto para os servidores como para os órgãos do GDF, mantendo a boa prestação dos serviços públicos distritais. Por fim, foram apresentadas as limitações e recomendações de futuras pesquisas que discutam a temática.
Título do Evento
Encontro Brasileiro de Administração Pública
Cidade do Evento
Ananindeua
Título dos Anais do Evento
Anais do Encontro Brasileiro de Administração Pública
Nome da Editora
Even3
Meio de Divulgação
Meio Digital

Como citar

FURTADO, Clayton Clay; MONTEZANO, Lana. ‘DESCONECTANDO O TELETRABALHO’: O RETORNO COMPULSÓRIO (E ABRUPTO) AO TRABALHO PRESENCIAL NO GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL NA PERSPECTIVA DE SERVIDORES... In: Anais do Encontro Brasileiro de Administração Pública. Anais...Ananindeua(PA) Unama, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/encontro-brasileiro-administracao-publica/1061273-DESCONECTANDO-O-TELETRABALHO--O-RETORNO-COMPULSORIO-(E-ABRUPTO)-AO-TRABALHO-PRESENCIAL-NO-GOVERNO-DO-DISTRITO-. Acesso em: 31/08/2025

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